Coringa | Uma lição sobre empatia

A leitura abaixo contém spoilers sobre o filme e sobre nós, seres humanos.

Coringa | Uma lição sobre empatia

Muito tem se falado – bem e mal – sobre o novo longa da DC que finalmente conseguiu deixar sua marca nas telonas. Coringa tem alcançado recordes de bilheteria e despertado atenções inesperadas.

Ao que tudo indica, Coringa abre as portas para o selo Dark da DC nos cinemas. Particularmente, era algo que eu queria ver desde o começo, afinal estava se tornando cansativo ver a DC/Warner tentar copiar a “fórmula Marvel” sem sucesso. A DC Comics tem um potencial mais para o sombrio mesmo, para estórias mais pesadas mesmo. Que bom que todo o colorido dado à Coringa ficou apenas no seu figurino e maquiagem.

Mas não estamos aqui hoje para falar da produção de Coringa ou da assombrosa atuação de Joaquin Phoenix, apesar de todos os envolvidos no projeto merecerem congratulações e serem responsáveis pelo resultado do qual estamos a ponto de falar. Estamos aqui hoje para falar da profundidade do roteiro. O roteiro, que é a alma de um filme, tantas vezes deixado de lado, tantas vezes ofuscado pelo glamour das atuações ou das nuances da direção ou até mesmo esquecido perante os efeitos especiais. Tolos aqueles que não percebem que nenhum corpo é vívido sem uma alma!

Um trabalho magnífico e inspirador para os amantes do cinema, e uma lição para a humanidade.

Pois bem, muitos fãs da DC e da cultura pop de um modo geral estavam preocupados se o filme iria adaptar fielmente a origem do Coringa. Muitos, inclusive, se mostraram contrariados pois “essa não é a verdadeira história do personagem”. Faz-se necessário entender que muito do conteúdo dos quadrinhos foi usado no longa, porém desde o início da produção Todd Phillips deixou claro que não tinha intenção de fazer uma cópia fiel.

E é aqui que a nossa conversa começa, de fato: com você, fã, entendendo que Coringa não é um filme exclusivamente direcionado ao público nerd. É um filme que deveria ser assistido por todos que tem idade para vê-lo. Sim, é uma produção que exclui a menoridade da sua audiência devido a violência contida nele. É o filme mais violento que você já viu? Não. Você ficou horrorizado(a) com os atos de violência contido nele? Não.

Contudo, é uma história violentíssima. É sobre a crueldade humana. E para ser cruel, às vezes nós usamos apenas palavras ou até mesmo gestos. Não há nada mais cruel que menosprezar ou ignorar o próximo. Portanto, é um filme psicologicamente e emocionalmente violento, e eu sinto muito se você não entendeu a mensagem contida nele. E é aí que está o problema da sociedade.

A intenção é mexer com a sua quietude: o esforço de alguém que luta contra suas próprias emoções

Não fique preocupado se em algum momento você se viu torcendo por ele. Fique preocupado se você apenas enxergou o caos que ele se tornou, mas não percebeu os ventos fortes vindo, um por um, de todos os lados. E esse era o ponto em que eu queria chegar quando escrevi “Coringa – Uma lição sobre empatia”.

É aqui que eu venho glorificar a sensibilidade de Todd Phillips de escolher um mundo surreal, um personagem ficcional, e inserir um contexto completamente mundano para nos dizer “Ei! Você que está assistindo! Você ainda não percebeu que estamos criando monstros todos os dias?”. A mensagem está impressa no filme inteiro, mas brilha com mais intensidade no momento em que Fleck confronta seu suposto pai, Thomas Wayne.

“Ninguém se importa de verdade com você, Arthur”.

Phillips mostrou um homem que possuía um sonho, mas também uma limitação. Uma vida construída sobre uma sucessão de falhas e desapontamentos. Uma vida vivida dentro de uma sociedade que EXIGE que você seja algo que está acima da sua condição de ser. Sim, Arthur Fleck tem uma condição mental peculiar, foi abandonado, e passou a vida inteira sendo abusado de inúmeras maneiras. O personagem tenta desesperadamente ser “normal”, ignorar todas as formas de violência sofridas por ele, se inserir. Em um dado momento, ele descobre todas as mentiras, todo o descaso, toda a humilhação e a mistura desses elementos geram o gatilho que transformam um pobre coitado num psicopata com sede de sangue. Nenhuma surpresa em saber que a sociedade doentia, exausta e delirante toma seus atos como um símbolo de manifestação e anarquia.

O momento da transformação é onde o ser humano desiste de lutar e, no popular, liga o f*da-se. “Achei que a minha vida era um drama, mas descobri que é uma comédia”

Arthur Fleck se torna um assassino frio, enlouquecido, sem bandeira. Mas ele poderia ter se tornado um homem depressivo, ele poderia ter se tornado um suicida. Esse é o ponto onde Coringa se funde com a realidade, onde podemos refletir quantos Arthur Flecks existem no nosso cotidiano, convivendo conosco dia a dia. Não precisa ser alguém com um distúrbio mental, mas se você olhar ao seu redor com certeza irá perceber aquela criança que contou seu sonho com os olhos brilhando ao pai que riu na sua cara e lhe ridicularizou perante os amigos. Ou aquele vizinho que está sempre dando o seu melhor, mas é tratado por todos como um fracassado. Ou aquele conhecido que tem aparência incomum e é afastado por todos como um leproso.

A frase pode ser aplicada em inúmeros contextos, nada é mais cruel do que ser forçado a agir contra o que você é de fato

A empatia pode ser algo tão simples, pode vir através de gestos tão pequenos e gratuitos. Mas a falta dela pode gerar verdadeiros desastres… A mente humana é a máquina mais brilhante já conhecida, entretanto de natureza frágil, sensível. O que é apenas uma brincadeira para uns pode ser destrutivo para outros. Então, porque não tentar tratar o seu próximo não da forma como você foi tratado(a), alimentando um ciclo vicioso de ódio e rancor, mas da forma que você gostaria de ser tratado(a)? Porque negar um bom dia? Porque não oferecer um elogio? Porque não segurar a porta do elevador ou não oferecer ajuda para carregar uma sacola? Porque ignorar a dor do outro quando você pode simplesmente perguntar “você está bem?” e obter de volta um não tão sincero “sim, apenas uma dor de cabeça”, que acaba sendo sentido como “puxa, alguém me notou e se importou de verdade”? E talvez aquele “está tudo bem, obrigado” já não seja mais uma total mentira, afinal alguém se preocupou…

Coringa, afinal, não é só mais um filme de super-herói, ou melhor dizendo, de super vilão. É uma história sobre como nós mesmos criamos os monstros que nos assombram e como seria fácil evitar que eles nascessem se nós fossemos apenas mais gentis.

Ah! E se esse texto te despertou pelo menos um pouquinho de reflexão, então já sinto meu dever cumprido! 🙂

Veja também:

Com história bastante envolvente do início ao fim, ‘Coringa’ abalará suas emoções.

[Vídeo] O que achamos de Coringa – assista!


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