Review | Tuca & Bertie

Os pássaros mais cativantes do Netflix mostram suas asas

Review | Tuca & Bertie

Em meio à vibe de desenhos adultos modernos, como Rick & Morty, Final Space e BoJack Horseman, Tuca & Bertie ganhou seu espaço com uma crítica bem-humorada sobre a vida adulta feminina. Criada por Lisa Hanawalt, que trabalhou como designer de produção em BoJack, a série de 10 episódios trouxe pássaros antropomórficos com problemas de comportamento e um carisma sem igual que tentam aproveitar o melhor da vida apesar de tudo (e não tentamos todos?).

Acompanhamos então as protagonistas Tuca (Tiffany Haddish), uma tucana livre, bagunceira e despreocupada, e Bertie (Ali Wong), uma songbird (que pode ser traduzido como uma espécie de pássaro canoro) ansiosa e responsável, através de suas vidas e suas aventuras do dia-a-dia. A amizade das duas, seus relacionamentos, conflitos pessoais e motivações são o foco da série, que trata de questões comuns para qualquer pessoa com muito humor, sensibilidade e sinceridade, do ponto de vista das duas mulheres-pássaro que, aos 30 anos, enfrentam crises de idade, se reinventam e se redescobrem durante a temporada.

Bertie, Tuca e Speckle – Reprodução/Fortune

É impossível assistir à Tuca & Bertie e não se lembrar de BoJack Horseman. As duas séries animadas tem praticamente o mesmo time de produção, e apesar da simplicidade acentuada em comparação à BoJack, Tuca & Bertie tem traços mais fluidos, principalmente nos movimentos das protagonistas. É muito divertido acompanhar, por exemplo, os movimentos de Tuca, que abusa da linguagem corporal em seu comportamento. Assim, boa parte da comédia é transmitida na animação que não segue padrões comuns de física ou de lógica normal, sendo nonsense, colorida e exagerada. O humor, ácido e sincero, exagera as ações das personagens e torna tudo mais sincero (com uma dose frenética de nonsense, como já mencionado acima).

Apesar de sua natureza de comédia,a obra investe pesado no desenvolvimento dos personagens principais, explorando seus dramas e demônios pessoais. Inserindo emoções e dilemas humanos (principalmente femininos) em Tuca & Bertie, o roteiro aproveita todo o tempo disponível para trabalhar suas histórias e seus relacionamentos de forma consciente e honesta. Descontrole emocional, abuso sexual, culpa e vergonha, assédio no ambiente de trabalho, ansiedade, auto-estima, crise de idade… Todos os temas abordados na série são relacionáveis com o espectador, independente de seu sexo, mas a escolha das protagonistas femininas para catalisar e representar estas histórias é essencial para a representatividade feminina.

A amizade de Tuca e Bertie se fortalece e ajuda as duas a crescerem – Reprodução/Film Daily

Como seres humanos, não existem sentimentos exclusivos de um sexo ou outro; todos somos capazes de sentir os mesmos sentimentos, e se relacionar com personagens cativantes e profundas como Tuca e Bertie. Ambas são altamente empáticas e esta é uma de suas maiores qualidades: elas representam problemas comuns da nossa geração, independente do sexo, do ponto de vista feminino, sensível e humano. Além delas, os personagens coadjuvantes como Speckle (namorado de Bertie) também são desenvolvidos e colaboram com o caminhar da narrativa; eles não estão lá apenas como enfeite ou fundo para as protagonistas. Os vizinhos das duas, seus colegas de trabalho e personagens que cruzam seus caminhos durante a obra também contribuem, de forma pequena ou grande, para seus desenvolvimentos e acontecimentos na história.

Apesar de tudo isso, a Netflix decidiu não renovar a série animada para uma segunda temporada. A atitude foi recebida de forma negativa na internet, com a própria Lisa Hanawalt demonstrando seu desgosto com a decisão através do Twitter. Uma oportunidade de expandir ainda mais os personagens maravilhosos e os diálogos importantíssimos sobre saúde mental e crescimento pessoal foi perdida, e com certeza fará falta. Obras como Tuca & Bertie são importantes por tornarem assuntos tão sérios e inerentes ao ser humano mais acessíveis e fáceis de digerir, até de forma mais divertida e descompromissada. A forma como a animação ajuda a contar a história e a personificar os problemas e jornadas pessoais das protagonistas foi o maior destaque de Tuca & Bertie, bem como sua sensibilidade e tiradas inteligentes.

Caso tenha se interessado em Tuca & Bertie, sugiro conferir também (caso ainda não conheça) BoJack Horseman, que conta com o mesmo grupo de produção já mencionado. Ambos estão disponíveis no Netflix até o momento.


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