Review | Sex Education

Uma conversa sem tabus sobre sexo na adolescência

Review | Sex Education

A educação sexual muitas vezes é vista como tabu em sociedades menos desenvolvidas ou por pessoas de comportamento conservador. Em países como a Alemanha, por exemplo, ela é obrigatória e o reflexo disso na sociedade é positivo, formando cidadãos conscientes acerca de sua saúde sexual. Neste momento crucial de retrocesso humano em sociedades como a brasileira, Sex Education chega para conversar sobre o sexo, de várias perspectivas diferentes, mas com uma linguagem jovem e sincera, focada no público adolescente.

A série, original do Netflix, possui oito episódios de 50 minutos cada e conta a história de Otis Milburn (Asa Butterfield), um colegial com alguns traumas psicológicos e filho de uma sexóloga. Ele é o nosso protagonista, e é com ele que a história em si toma início. Com seu melhor amigo Erik Effiong (Ncuti Gatwa), um garoto negro e gay com uma família extremamente religiosa, e Maeve Wiley (Emma Mackey), a garota “diferentona” do colégio com um passado cheio de traumas, Otis se torna um “sexólogo mirim” para os colegas do colégio, já que a maioria deles tem algum problema sexual e Otis possui um pouco de experiência devido ao trabalho de sua mãe. Dessa forma, ele tenta ajudar os colegas, em troca de dinheiro, enquanto luta para resolver seus próprios demônios internos.

Ncuti Gatwa e Asa Butterfield como Erik e Otis, respectivamente – Reprodução/Digital Spy

Aqui é necessário apontar esta como uma das qualidades principais de Sex Education: todos os personagens tem destaque. Alguns mais do que os outros (como o trio de protagonistas), mas cada aluno tem seus problemas e seu comportamento específico. Isso torna a história mais natural e nos impede de ficar presos à Otis o tempo todo (o que é ótimo, considerando que o protagonista se torna mais irritante com o passar dos episódios), mas também constrói estereótipos comuns ao destacar cada personagem, como o bully problemático, a patricinha sem coração, a lésbica masculinizada, a gótica diferentona…
Já que a série aborda a adolescência, é até “comum” ver esses estereótipos envolvidos. Toda a linguagem da série é moderna e sensível, voltada para este público, facilitando o acesso à um assunto que é considerado tabu em vários lugares. Essa facilitação torna a obra mais palatável e divertida, mesmo retratando um assunto sério.

A fotografia da série é belíssima: as locações ao natural e até mesmo a escola, cercada por árvores e arbustos, enchem os olhos do espectador. Em conjunto, a trilha sonora ajuda a montar um tom bucólico, algo que poderíamos ver no interior da Inglaterra, por exemplo. E, falando nisso, foi na Inglaterra onde as filmagens da série foram realizadas, bem como em Wales; ambos países do Reino Unido.

A ambientação do Reino Unido é de tirar o fôlego – Reprodução/CN Traveler

Porém, algumas pontas soltas e decisões de enredo acabam enfraquecendo a obra como um todo. O protagonista, Otis, se torna irritante em determinados pontos da série graças ao seu comportamento autocentrado e decisões egoístas (Erik que o diga). Para completar, seu “relacionamento” com Mavis é outro estereótipo típico: a “bad girl” que se apaixona pelo “nerd bonzinho” mas não consegue admitir seus sentimentos, e isso impede que ambos sigam em frente em possíveis relacionamentos saudáveis. Tudo isso faz com que Otis seja frustrante às vezes, perdendo o palco para figuras mais interessantes e aprofundadas como Erik, cujo crescimento e jornada de auto-conhecimento o enriquecem e movem a trama.

Algumas histórias apresentadas também ficam para trás, sem conclusão. Dos casos “tratados” por Otis, nem todos são concluídos e, portanto, acabam esquecidos e largados para trás conforme a série avança. Os personagens envolvidos dificilmente são vistos novamente e isso deixa questionamentos no ar.

Sex Education se mantém fiel à sua proposta: falar sobre sexo para adolescentes de forma ficcional, fácil de entender e de se relacionar. A obra da Netflix traz vários rostos novos e atuações de qualidade que emocionam e conquistam o espectador, atravessando os campos da comédia e do drama com um toque mais sensível. Apesar do protagonista ser um tanto frustrante, a ambientação geral e o desenvolvimento dos outros personagens e de suas histórias acaba por prender aqueles que decidem acompanhar a série.


Siga nossas redes sociais: FacebookInstagramTwitter YouTube.