Entendendo Dark | O tempo cíclico e o Paradoxo de Bootstrap

ATENÇÃO! Se você não está em dia com Dark, essa matéria contém spoilers!!!

ciclo de datas Dark Netflix
Se você também está acompanhando Dark, mas tem receio que a série dê um bug no seu cérebro, essa matéria é pra você!

Dark é uma das séries mais complexas já criadas envolvendo viagem no tempo, mas o que a torna especial é o formato como o tempo é apresentado nela. Estamos acostumados a ver materiais sci-fi mostrando o tempo linear e as alterações feitas por viagens no tempo originando novas linhas temporais e, com isso, o multiverso.

Pois bem, em Dark o tempo é apresentado como um ciclo de 33 anos, onde as alterações causadas pelos viajantes entram em um loop infinito, como se elas estivessem pré-destinadas a acontecer para que todo o resto possa existir.

What?

Reprodução: Tenor

O queeeee???

Calma, vou explicar: até agora, já sabemos que em 2019 Jonas leva o pequeno Mikkel até a caverna, onde ele desaparece. Ele vai parar em 1986 e não consegue voltar para o seu tempo, sendo posteriormente adotado por Ines Kahnwald e assumindo o nome de Michael. Michael cresce, se casa com Hannah e tem seu filho Jonas. Jonas quando crescer irá levar o pequeno Mikkel para a caverna, fechando o ciclo.

Veja bem, essa matéria não é pra dissecar Dark e suas árvores genealógicas, nosso objetivo é fazer você entender como e porque as coisas estão acontecendo daquela maneira. Portanto, o caso citado acima é só um exemplo das tantas situações que aparecem na série, baseadas no Paradoxo de Bootstrap, e é aí que o caldo entorna.

O Paradoxo de Bootstrap

Quem disse que séries são só entretenimento, né?! Vamos à ciência!!! O Paradoxo de Bootstrap é uma teoria envolvendo viagem no tempo onde um objeto ou peça de informação fica preso dentro de um loop infinito de causa e efeito, no qual o ponto de origem dele se perde, não é mais discernível. Esse objeto ou peça de informação passa a ser considerado “sem causa” ou “auto-criado”. É também conhecido como Paradoxo Ontológico, em referência à ontologia, um ramo da metafísica que trata do estudo do ser e da existência.

O termo foi popularizado após a publicação do livro By His Bootstraps, de Robert A. Heinlein (1941), onde aparece a expressão “pull oneself over a fence by one’s bootstraps”, que significa mais ou menos “puxar-se para cima de uma cerca pelos seus próprios cadarços”, que ilustra a realização de uma tarefa impossível.

What? What the fuck?

Reprodução: Giphy

Oooiiii???

Tá, a teoria não ajuda muito, vamos à prática! Imagine que você encontrou uma máquina do tempo e, por ser muito fã de Beethoven, a primeira coisa que vem à sua cabeça é: “vou voltar no tempo para conhecer Beethoven e levar todas as suas composições em partitura para que ele autografe pra mim!”. Maravilha! Chegando no passado, você descobre que Beethoven é um zé ninguém e nunca compôs nada! Indignado(a), com toda a obra de Beethoven nas mãos, você vai até ele e lhe entrega suas composições (peças de informação). Você volta para o “seu tempo”, ao passo que Beethoven publica as obras – que você entregou à ele – assinadas por ele lá no passado e, no seu tempo de partida, tudo está normal novamente: Beethoven é um grande gênio da música!

E aqui fica a grande pergunta: quem compôs, por exemplo, a 5ª sinfonia? Você ouviu a peça no seu tempo, aprendeu a tocá-la, leu as partituras assinadas por Beethoven. Mas Beethoven não havia composto no passado, até que você levou as partituras para ele. E assim, nesse exemplo, a 5ª sinfonia de Beethoven, passa a ser um objeto auto-criado, onde a origem se perdeu num loop infinito. Deu pra sacar?!

É como a história da origem do ovo e da galinha: o ovo precisa que a galinha o ponha, e a galinha, para se tornar galinha, precisa nascer de um ovo. E assim a origem do ciclo se perde e nunca sabemos onde tudo começou, restando a pergunta: quem veio primeiro, o ovo ou a galinha?

CAUSAL-LOOP-PARADOX

Na imagem, é impossível dizer onde o evento começou, a bola está num loop causal.
Reprodução: scienceabc.com (imagem alterada)

Aplicando o Paradoxo de Bootstrap em Dark

Em Dark, a coisa fica um pouquinho mais complicada – jura? Dá pra priorar? Sim! – pois não se enviam apenas itens ou informações através do tempo, são enviadas pessoas. E não importa em que “direção” no tempo você viaja, o futuro também influencia o passado. Afinal, quando a origem se perde, você não sabe se um evento passado alterou o futuro ou se foi justamente o oposto!

É assim que Charlotte, que nunca conheceu seus pais, teve uma filha chamada Elizabeth. Essa, em algum momento no futuro, resolveu voltar ao passado, onde se relacionou com Noah e teve uma filha chamada Charlotte. Ou seja, Elizabeth é mãe e filha de Charlotte, mas não podemos afirmar onde o evento inicial aconteceu. Não dá pra dizer que Charlotte só existe porque Elizabeth voltou ao passado e teve uma filha, afinal de contas, também é fato que Elizabeth só existe porque no passado Charlotte teve uma filha!

jonas e mikkel de volta à caverna

Jonas leva Mikkel em direção à caverna.
Reprodução: Pinterest

Assim, a série nos mostra que toda e qualquer tentativa de alterar os acontecimentos, seja viajando para o passado ou para o futuro, são apenas atos pré-determinados a acontecer que vão, na verdade, gerar esses eventos que o personagens pretendem evitar. Ou vão criar, para o viajante do tempo, uma impossibilidade de fazer essa alteração. Exemplo: se Jonas voltasse à 1986 para buscar Mikkel, Michael nunca existiria em 1986, não cresceria, não casaria com Hannah e assim Jonas não nasceria, portanto, Jonas não estaria lá em 2019, para voltar no tempo e resgatar Mikkel no passado, caso Jonas o tivesse feito (danou-se!). Meio doido, mas com o tempo você vai se acostumando com a teoria e ela vai fazendo sentido!

mind blown

Reprodução: leninja.com.br

Bem, espero que essa matéria tenha alcançado o objetivo de fazer vocês se tornarem confortáveis com o Paradoxo de Bootstrap, a ponto de entenderem por si mesmos os eventos de Dark, sem fundir o juízo!

As duas temporadas de Dark estão disponíveis na Netflix e você pode conferir o nosso review da segunda temporada, enquanto digere essa matéria e espera junto conosco pelo Grand Finale da série!


Siga nossas redes sociais: FacebookInstagramTwitter YouTube.