Review | Black Mirror – 5ª temporada deixa a desejar

Black Mirror quinta temporada
Precisamos falar sobre o processo criativo de Charlie Brooker e o que aconteceu com Black Mirror

Não é segredo pra ninguém que Black Mirror é uma antologia focada em mostrar um cenário futurista não tão distante do cenário atual, totalmente possível de acontecer “daqui há pouco” e, de preferência, controverso. Assim, quando nos deparamos com situações onde a tecnologia criada para um fim acaba sendo usada de uma forma completamente equivocada, sempre tem alguém dizendo “Isso é tão Black Mirror...”.

Foi assim que a série conquistou uma legião de fãs, recentemente apresentando o suprassumo da criatividade no filme interativo derivado Black Mirror: Bandersnatch. Depois de apresentar algo que, certamente, foi uma inovação em termos de cinema, a Netflix nos deixou com a sensação de “o céu é o limite” em relação à Black Mirror, mas estou sentindo que a fonte secou.

Black Mirror quinta temporada

Black Mirror – 5ª temporada
Reprodução: The Ringer

A quinta temporada estreou com 3 episódios em 5/6/2019, com um rompante de ascensão seguido de uma queda vertiginosa, culminando com um clichê que equilibrou um pouco, tornando a digestão da temporada mais fácil.

Bom, sem mais delongas, vamos destrinchar em detalhes os episódios.

Episódio 1 – Striking Vipers (o ápice)

Um dos episódios mais loucos de toda a antologia, esse de fato fez a cabeça explodir! Estrelado por Anthony Mackie (Danny) e Yahya Abdul-Mateen II (Karl), Striking Vipers é inspirado em jogos como Street Fighter, numa visão futurista, é claro. Karl, amigo de infância de Danny, presenteia-o com um jogo de vídeo game nostálgico, numa versão high tech, juntamente com um aparelhinho necessário para jogar esse tipo de jogo. Aqui vem aquele bom e velho easter egg: o equipamento é o mesmo mostrado em “USS Callister”, na quarta temporada, com a mesma função de projetar a consciência da pessoa para o mundo virtual.

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Striking Vipers – Karl presenteia Danny com um saudoso jogo dos tempos de infância
Reprodução: Popsugar

Danny e Karl escolhem seus personagens de sempre e é aí que a coisa começa a ficar Black Mirror! Ao invés de lutar, eles começam a se pegar dentro do jogo! Sem dizer mais detalhes sobre o episódio, o fato é que Striking Vipers levanta uma reflexão que só é possível por conta dessa tecnologia: ambos são heterossexuais e só sentem atração mútua dentro do jogo, onde um deles usa o avatar de uma mulher.

O final trás aquele já consagrado plot twist, com uma resolução sensacional para a situação.

Episódio 2 – Smithereens (a derrocada)

Smithereens é o oposto de tudo o que Black Mirror representa: é previsível, contemporâneo, chega a ser corriqueiro. A situação apresentada é algo que pode acontecer no nosso dia a dia, pode já ter acontecido inclusive. Smithereens é uma rede social viciante, cujo uso indevido causou um dano irreversível na vida de Christopher (Andrew Scott). Chris perde a noiva em um acidente de carro e se culpa por sua morte, afinal ele estava acessando a rede social enquanto dirigia (oh, que inusitado!). Ele se torna uma espécie de Uber e dedica sua vida a sequestrar algum funcionário da Smithereens, na esperança de obter acesso à Billy Bauer (Topher Grace), CEO da empresa.

Pedacinhos Smithereens

Smithereens – o rapto mais atrapalhado da história
Reprodução: Goomba Stomp

O fato é que, tudo nesse episódio torna ele desnecessário. A tecnologia não tem nada de futurista, já vivemos isso no cotidiano; a consequência do seu mau uso também não é novidade; raptar um funcionário para conseguir a atenção do dono, na intenção de fazê-lo se sentir culpado por criar a rede social é, no mínimo, previsível. A excelente atuação de Andrew Scott faz valer a pena a hora perdida, mas é aqui que eu me pergunto: o que aconteceu com Charlie Brooker?! Qual o motivo dessa total desconexão com o resto da antologia? A fonte secou? Faltou criatividade?

Pra deixar o público ainda mais irritado, Smithereens termina sem fim. Todas as questões levantadas durante o episódio ficam suspensas, no melhor estilo “Você decide”, só que apenas dentro da sua cabeça. Ao menos os planos-sequência e as cenas de ação são bem feitas.

Episódio 3 – Rachel, Jack e Ashley Too (o clichê)

E quem diria que você um dia iria ver algo clichê em Black Mirror, hein?! Pois é, temos uma versão otimizada da Usurpadora, meus amigos! Apesar da boa interpretação de Miley Cyrus na pele de Ashley O., as sequências de roteiro completamente previsíveis e desgastadas da história são apenas camufladas pela tecnologia futurista, que acaba quase sendo figurante por aqui.

Ashley O. (Miley Cyrus) é uma popstar do mundo da música – não diga! -, cuja tia Catherine (Susan Pourfar), sua tutora, toma todas as decisões sobre a sua carreira. Ao notar uma mudança em Ashley, que pretende tomar as rédeas do seu trabalho, Catherine forja uma alergia que pôs Ashley em coma até que ela complete 25 anos e não tenha mais obrigações contratuais. Usando uma tecnologia inovadora para extrair músicas do subconsciente de Ashley, ela cria Ashley Eternal: um tipo de holograma da cantora que seria usado em apresentações durante o coma.

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Rachel, Jack e Ashley Too – clichê, mas deu uma equilibrada na temporada
Reprodução: Fox News

Antes disso tudo acontecer, é lançada no mercado a Ashley Too, uma boneca eletrônica com uma inteligência artificial baseada na personalidade de Ashley. Graças à um milagroso curto circuito que desbloqueia parte da “consciência” da boneca, sua grande fã Rachel (Angourie Rice) e sua irmã Jack (Madison Davenport) acabam descobrindo os fatos que levaram Ashley ao coma e resolvem ajudar Ashley Too a desmascarar a tia.

Mesmo sendo clichê, as performances são convincentes e o final é satisfatório, mesmo sem as grandes reviravoltas já esperadas em Black Mirror, que deixam a gente de queixo caído.

Enfim, com o sentimento de “é bom, mas é ruim”, deixo aqui um conselho: veja mesmo assim!

Pra dar mais vontade de ver, confira o material promocional da temporada aqui!

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