Crítica | “Nós” é uma celebração do terror contemporâneo

Crítica | “Nós” é uma celebração do terror contemporâneo

Nos últimos anos, uma leva de filmes de terror tem se distanciado das características que os tornaram famosos no passado. Excesso de violência, gore, sustos baratos com jumpscares e efeitos de áudio exagerados… Obras contemporâneas como O Babadook (The Babadook), Corra (Get Out), Hereditário (Hereditary) e A Bruxa (The Witch) trazem roteiros inteligentes, atuações excelentes e desafiam o espectador à expandir sua forma de consumir e apreciar obras de terror. E é nessa maravilhosa época para ser um fã de terror que temos Nós (Us), do diretor Jordan Peele (mesmo responsável pelo anteriormente mencionado Corra), que se une com louvor à estes filmes pela sua qualidade primorosa, atuações dedicadas, narrativa envolvente e crítica social presente.

Peele, que fez sua estreia como diretor em Corra e recebeu o Oscar de Melhor Roteiro Original, é o responsável pelo roteiro, produção e direção de “Nós”, sua segunda obra. Já é possível notar algumas características comuns às obras do diretor, como a crítica social, leves nuances de comédia para aliviar a tensão, reviravoltas que deixam o clímax ainda mais chocante e a escolha de atores negros para o elenco principal. Suas obras também possuem grande influência musical para compor as cenas, e costumam ter referências em si próprias, fazendo uso de metalinguística, metáforas e rimas visuais que enriquecem a conexão entre a interpretação e o visual.

“Nós” possui uma sinopse relativamente simples, porém uma narrativa complexa e um roteiro inteligente que prioriza a interpretação, tanto dos atores quanto do espectador. Uma família, composta por pai, mãe e dois filhos, decide passas as férias numa casa de praia. A mãe, Adelaide (Lupita Nyong’o), está desconfortável com o passeio, pois sofreu um evento traumático na mesma praia em que se encontra agora. Gabe (Winston Duke) é o típico pai bem-humorado que deseja passar mais tempo com a família e fazer atividades em grupo, Zora (Shahadi Wright Joseph) é a filha mais velha, sempre usando o celular e interagindo minimamente com os outros e, por fim, Jason (Evan Alex) é o mais novo, sempre implicando e insistindo em truques de mágica. A família acaba sendo atacada por quatro versões “sombrias” de si mesmos, que invadem a casa e os tornam reféns. A partir daí o filme se desenrola,  subvertendo a expectativa do espectador e desafiando os clichês que permeiam o gênero de terror.

O longa é recheado com cenas de tensão e o uso dos efeitos sonoros é um grande responsável por isso. Os velhos jumpscares, cenas de sustos repentinos com barulhos estrondosos que pegam o espectador de surpresa, não são o foco aqui; a tensão permeia cada decisão, cada virada repentina de narrativa e é apenas desanuviada pelo alívio cômico proporcionado por Gabe. O pai da família tem uma personalidade extrovertida e tagarela, que rende momentos divertidos, relaxando o espectador em meio à tensão. Porém, isso é uma faca de dois gumes, pois pode se tornar irritante para alguns espectadores ver Gabe tirando sarro em cenas que são de extremo peso. A trilha sonora, que é mais pontual e ajuda a compor bem o sentimento presente em cada cena, brilha em momentos como quando escutamos “Fuck Tha Police“, do N.W.A., que faz uma crítica ao mesmo tempo que zomba da cena na qual está inserida (que não daremos mais detalhes pois spoilers!).

As atuações, como já citado acima, são o ponto alto do filme. Todos os atores estão extremamente à vontade em seus papéis correspondentes, e o destaque é para a protagonista e as crianças. É comum, em filmes de terror, vermos atuações caricatas dos atores infantis, que costumam estar ali apenas para cumprir o estereótipo de “criança medonha”, sem terem espaço para entregar atuações mais dedicadas. Neste caso, Evan Alex e Shahadi Wright Joseph conseguem passar muitas emoções em seus papéis, tanto como seus personagens “normais” quanto como suas sombras, Pluto e Umbrae, respectivamente. Lupita Nyong’o é a grande estrela, atuando de forma primorosa em ambas as personagens que representa, controlando toda a trama subversiva com facilidade.

Uma mistura de terror, horror, drama e ficção científica, “Nós” é repleto de referências filosóficas, psicológicas e celebra todas elas, bem como os gêneros dos quais usufrui. Sob a mão competente de Peele, temos uma obra profunda, interessantíssima, assustadora e subversiva. O sucesso do longa confirma o que todos já desconfiavam desde o lançamento de “Corra”: Jordan Peele é um diretor e roteirista extremamente talentoso, que contribui extremamente ao gênero de terror contemporâneo que temos visto surgir, e que promete levar os filmes de terror à outro nível.

NOTA: 4,5/5


Siga nossas redes sociais: FacebookInstagramTwitter YouTube.

Compartilhe: