Review | Tartarugas Até Lá Embaixo

Review | Tartarugas Até Lá Embaixo

“Um dos desafios da dor é que só podemos nos aproximar dela através de metáforas.”

Tartarugas Até Lá Embaixo (“Turtles All The Way Down“) é o quinto livro lançado por John Green, em 2017 e trazido ao Brasil pela Intrínseca com tradução de Ana Rodrigues. A obra é a mais intimista do autor até o momento, retratando o sufoco vivido por ele com o TOC (transtorno obsessivo-compulsivo) de forma ficcional, através da protagonista Aza.

Mas sobre o que se trata Tartarugas Até Lá Embaixo? O título “confuso” não entrega muito da trama, e isso é maravilhoso! É um estímulo à curiosidade do leitor, que deve encarar a capa da obra de sobrancelhas franzidas e um grande ponto de interrogação em mente. A história acompanha Aza Holmes, uma garota diagnosticada com TOC, órfã de pai que vive com sua mãe em Indianápolis, USA. Aza é estudante, e sempre se esforça para ser uma boa aluna, uma boa filha e uma boa amiga para Daisy e Mychal, sempre consciente do impacto que seu transtorno causa nela e em todos ao seu redor. Ela tenta não deixar que seu TOC influencie negativamente o cotidiano de todos, mas essa é uma tarefa quase impossível. Além disso, o mistério do desaparecimento do bilionário Russell Pickett e a recompensa oferecida pela polícia por informações de seu paradeiro acaba atraindo Aza e Daisy até Davis Pickett, filho de Russell e amigo de infância de Aza com quem ela perdeu contato com o passar dos anos. E, nesse ponto, a trama do livro se desenvolve, se afunila e vira um redemoinho.

Capa brasileira da obra – Reprodução/Intrínseca

Distribuído em menos de 300 páginas (o que, a princípio, eu achei pouquíssimo), o livro mostra em primeira pessoa o sofrimento de Aza, um mistério e como relacionamentos podem ser exaustivos, confusos ou simples demais. Quem já leu outras obras de John Green reconhecerá traços característicos da escrita e narrativa do autor; há o desenvolvimento de uma aventura que movimenta a obra e reúne os personagens, dando motivo a eles. Em paralelo, o relacionamento que surge entre Aza e Davis causa um desenvolvimento de personagem que resulta no crescimento de ambos, rendendo ao leitor as melhores conversas, repletas de tiradas sarcásticas, pensamentos filosóficos, auto-reflexões e poesias. Referências às estrelas e ao espaço são parte disso; é charmoso e cativante como os dois personagens desejam, acima de tudo, encontrar um senso de identidade próprio movido por todas essas reflexões. Quem sou eu: o meu dinheiro? O meu transtorno? Eu existo de verdade ou sou apenas um conjunto ambulante de pensamentos? Os dois dividem traumas semelhantes, como a perda de um ente querido (a mãe de Davis também faleceu) e o sentimento de não pertencer à lugar nenhum, nem a si mesmo.

Um dos pontos mais importantes da obra é a obsessão de Aza. Retratada de forma semivisceral, com riqueza de detalhes que podem levar os leitores mais sensíveis ao desconforto, a personagem é afetada pesadamente pelo TOC e acompanhamos toda a sua jornada lidando com esta condição e a influência dela em sua vida. Passando por altos e baixos, Aza trava uma luta diária para entender quem ela é no meio desse turbilhão esmagador de pensamentos constantes e controladores. Sua relação familiar, os amigos, o interesse romântico… Como lidar com tudo quando ela nem consegue lidar com os pensamentos dentro de sua cabeça?

Os personagens secundários da obra orbitam em torno de Aza em sua maioria, sendo influenciados por seu transtorno ou influenciando-a. Alguns foram pouco desenvolvidos, como a mãe de Aza (que desempenha o papel comum de mãe “solteira”) e Noah, irmão de Davis que sofre pesadamente com a ausência do pai, porém quase sempre por trás dos panos. Por outro lado, Daisy rouba a cena com seu jeito exagerado de melhor amiga e suas fan fics de Star Wars. Responsável por grande parte do alívio cômico, seu desenvolvimento de personagem é um dos melhores, partindo de uma personagem irritantemente extrovertida para alguém mais sincero e confiante, o que inclusive fortalece a amizade entre ela e Aza.

O livro em si possui um ar juvenil também comum nas obras de Green, que torna a leitura mais dinâmica e divertida, fazendo-o fácil de “devorar” em pouco tempo. Mesclando esse ar despreocupado e cotidiano com assuntos mais profundos, temos um prato cheio para divertir, maravilhar e arrancar uma lágrima do leitor. Transtornos, abandono, dinheiro, dor e um tuatara que pode (ou não) guardar o segredo da vida eterna se misturam na espiral de Tartarugas Até Lá Embaixo, aprofundando-se a cada capítulo junto com Aza e seus pensamentos.

Aqueles que gostarem da obra podem ficar felizes com a premissa de uma adaptação da obra para longa-metragem; em breve, veremos Aza, Daisy, Mychal e Davis nos cinemas. A FOX, empresa também responsável pelas adaptações cinematográficas de A Culpa é das Estrelas e Cidades de Papel, outras obras do autor, trará à vida Tartarugas Até Lá Embaixo em algum momento nos próximos anos.

 

NOTA: 5/5


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