Review | O Menino que Desenhava Monstros

Através de suspense, a obra nos apresenta um mistério encabeçado por personagens cativantes e simplórios.

Review | O Menino que Desenhava Monstros

O Menino que Desenhava Monstros (The Boy Who Drew Monsters, no original) é um romance de terror psicológico e suspense escrito por Keith Donohue e publicado no Brasil pela editora Darkside Books. Através de suspense, a obra nos apresenta um mistério encabeçado por personagens cativantes e simplórios, entregando um conto ameaçador que fará até o mais bravo dos leitores dar uma espiadinha embaixo da cama antes de dormir.

Em suas 252 páginas, o livro nos joga no meio de uma história em andamento, sem maiores explicações ou apresentações. Temos uma família de “protagonistas”, formada por Holly, Tim e Jack Peter, filho dos dois e o real protagonista da trama. Eles moram numa casa à beira mar, no Maine, que chamam de “casa dos sonhos”, graças à todo o investimento emocional e financeiro feito pela família na casa, longe de quase toda a civilização. Perto deles mora um casal de amigos, praticamente os únicos que a família ainda possui, chamados Nell e Fred, com seu filho Nicholas, o único amigo de Jack Peter… E este é o panorama central da trama. De dois à cinco novos personagens são introduzidos, mas nenhum deles com o mesmo peso dos membros das duas famílias. É entre eles que o sobrenatural se instala e coisas misteriosas começam a abalar o já frágil cotidiano que rege a casa dos sonhos: sons estranhos de madrugada, invasores tentando derrubar as paredes, seres cruzando as estradas… Um enlouquecedor conjunto de fatores, eu diria.

Reprodução: O Menino que Desenhava Monstros / Darkside Books.

Jack Peter, o menino que desenha monstros, é uma criança reclusa e “diferente”. Diagnosticado com agorafobia (medo de espaços amplos ou nos quais não se há controle), ele se recusa a deixar sua casa, tendo acessos de pânico sempre que precisa ser levado ao médico ou algo do gênero. Isso faz com que Nicholas seja seu único amigo, visitando-o com frequência. Conforme abordaremos seu comportamento em breve, é necessário dizer que este é um dos muitos detalhes que a história revela aos poucos, como num conta-gotas. A relação dos pais de Jack Peter, sua relação com o amigo Nicholas, o passado dos amigos Nell, Fred, Tim  e Holly… Todos esses fatos são importantes para entender a situação atual na qual os personagens se encontram e para entender seu senso de caráter e personalidades, a profundidade que eles possuem. Porém, estas informações são dadas de forma lenta, arrastada, o que contribui para a ansiedade e o suspense da história, ao mesmo tempo que pode irritar alguns leitores pela falta de consistência durante a jornada, especialmente no início, quando estamos no escuro em relação à tudo.

E falando em suspense, é ele que rege o ritmo do livro e manterá você imerso na obra. Um mistério que assola os personagens estimula a imaginação do leitor ao inserir elementos fantásticos num ambiente “normal”, fazendo os personagens duvidarem da própria sanidade à todo momento. Eles estão alucinando, exagerando em seus terrores e suspeitas? Você está caindo nas alucinações deles, ou consegue manter seu juízo e razão como leitor?

Além de tudo isso, o protagonista e aficionado por desenhos Jack Peter quebra o padrão normativo ao ser uma criança autista. Quantos livros você já leu que possuíam um protagonista “inválido”, com algum tipo de disfunção mental ou física? Pouquíssimos, provavelmente, ou nenhum. Inclusive, fica aqui o exemplo de dois protagonistas do tipo: Callum Hunt, protagonista da saga Magisterium, possui uma deficiência na perna esquerda que o impede de andar normalmente e faz com que os colegas o discriminem por isso (pelo menos no primeiro livro da saga; quem sabe se algum feitiço mágico não foi capaz de curar sua perna no futuro?),e o próprio Newt Scamander, protagonista de Animais Fantásticos, prequel de Harry Potter, provavelmente também faz parte do espectro, tendo Rowling e Eddie Redmayne comentado sobre isso em entrevistas algumas vezes. Jack Peter possui a síndrome de Asperger, sendo considerado uma criança funcional dentro do espectro, e acredite: o livro é movido pela síndrome dele. Se não fosse pelo menino ser exatamente como é, não haveria história alguma para ser contada. “Ué, mas é um livro de suspense, o que Asperger tem a ver com o mistério?”
Absolutamente tudo.

Apesar das qualidades e a ousadia no protagonista fora do padrão, o livro peca em algumas escolhas de enredo. Entre elas, a descrição de ambientes externos é às vezes um tanto exagerada, com longos comentários poéticos sobre o céu e a neve ao redor. Para um livro de suspense que nos mantém reféns da expectativa e da ansiedade, isso pode ser torturante. Em adição, há a introdução de uma personagem de raízes orientais e aparência pitoresca cuja existência é simplesmente para trazer à tona lendas japonesas sobre fantasmas (chamados aqui de yurei) e alimentar as alucinações de outro personagem. Era realmente necessário delegar esta tarefa à única personagem não-branca da obra? Como algo puramente exótico?

Por fim, algo que pode irritar alguns leitores é o fato de que os adultos presentes na obra, em sua maioria, são teimosos e totalmente cegos para tudo que não os afeta diretamente. Sabe aqueles personagens de filmes de terror trash que são incapazes de interpretar os fatos e “descobrir” os vilões para fugir deles, constantemente morrendo por motivos estúpidos? É algo semelhante que temos na obra. É enervante ver os adultos tão mergulhados em seus dilemas pessoais e alucinações, buscando respostas em todos os lugares, menos no lugar mais óbvio, à dois centímetros de seus narizes, nas dez páginas finais do livro.

O Menino que Desenhava Monstros é uma obra com elementos de tirar o fôlego e que mexerá até mesmo com leitores mais sisudos. Se você der uma chance, com certeza tremerá um pouco na próxima vez que flagrar uma criança desenhando inocentemente…
A Darkside Books trouxe uma belíssima versão ao mercado, com capa dura em relevo, páginas internas decoradas e uma parte especial no final destinada ao leitor para que faça seus próprios desenhos que deixam a experiência ainda mais imersiva nos desenhos de Jack Peter… e sinistra.

 

NOTA4/5


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