Você já ouviu falar de Alice Madness Returns?

Você já ouviu falar de Alice Madness Returns?

A história de Alice no País das Maravilhas é um clássico que tem inspirado gerações de artistas em diversos campos, inclusive gerando obras que são reimaginações da história original. Um exemplo recente é a Alice no País das Maravilhas de Tim Burton para a Disney, onde o diretor reimaginou o universo usando os personagens originais da obra. Ele teve liberdade criativa para modificar o enredo como preferisse, deixando a marca de seu estilo cinematográfico na estética e na história de sua obra. Diversos outros artistas fizeram semelhante, entre eles American McGee, o criador da versão mais macabra e bizarra do País das Maravilhas que você verá na sua vida…
Você já ouviu falar de Alice Madness Returns?

Origem

Antes de nos aprofundarmos em Alice Madness Returns, é preciso saber um pouco mais sobre seu criador e seu antecessor. American McGee criou, em 2000, um jogo single-player chamado “American McGee’s Alice“. O protecionismo com seu trabalho foi tanto que McGee batizou o jogo com seu próprio nome, que traduzido soaria algo como “A Alice de American McGee“, e a paixão de McGee pela sua ideia, pela sua Alice começou com uma música: “Trip Like I Do”, do Crystal Method. Ao ouvir a música durante uma viagem de carro, a ideia de algo “quebrado” se formou na cabeça de McGee: um universo que, partido, nunca mais seria o mesmo. À partir daí nasceu a premissa de um País das Maravilhas destruído e uma Alice Liddell psicologicamente conturbada, vivendo num mundo de terror.
O jogo foi publicado pela Electronic Arts e lançado para PC usando a engine de Quake, sendo sempre vendido pela violência e o terror psicológico em seu trailer de lançamento. O título trazia uma versão macabra e doentia de Alice no País das Maravilhas, onde a pequena Alice perde os pais e a irmã em um incêndio e é levada à um manicômio, pois não consegue lidar com a perda deles. Lá, ela consegue entrar no País das Maravilhas, uma representação fantástica e física de seu subconsciente perturbado. Então o jogo se desenrola no formato plataforma com batalhas e puzzles desbravando cada vez mais à fundo os limites da consciência de Alice, até que o boss final, a Rainha de Copas, se revela diante do jogador. No fim, Alice sai vitoriosa e abandona o manicômio, tendo superado seus traumas.
Então, onze anos depois de seu lançamento, uma sequência foi revelada para PlayStation 3, Xbox 360 e PC, com McGee novamente no posto de diretor e designer, dessa vez com um estúdio próprio: o Spicy Horse. Do trabalho conjunto entre americanos e chineses, nasceu Alice Madness Returns, com um salto assustador de qualidade quando comparado à seu antecessor e a proposta de expandir e recontar a história da Alice “das trevas”.

De volta à loucura

Em Alice Madness Returns, nossa protagonista é quase adulta e ainda atormentada pelos fantasmas do passado, procura ajuda psicológica com o Dr. Bumby, famoso psicólogo da Londres vitoriana que atende, em sua maioria, crianças com traumas que elas desejam esquecer. Em busca de sua recuperação emocional, Alice acaba caindo novamente em seu País das Maravilhas e descobre que nele há uma nova ameaça presente: o Trem Infernal. Não há mais equilíbrio ali; ela precisa desbravar seu próprio subsconsciente fantástico novamente e vencer aquele que espalha a fumaça negra do Trem, sabendo que ele destruirá tudo se não for parado e que isso implica que Alice também será destruída, entregue à sua loucura e desespero. O responsável pelo Trem Infernal é não outro senão Bumby, aquele com acesso livre à intimidade psicológica de Alice, sob a alcunha de Dollmaker, o boss final do jogo. Bumby é não apenas o vilão do jogo como o responsável pelo incêndio na casa de Alice e a morte de sua família, além de ter sido deixado nas entrelinhas que ele abusou sexualmente da irmã de Alice, Lizzie, e de diversas outras crianças confiadas à sua clínica de psiquiatria.

Um novo mundo

Alice Madness Returns é uma sequência que expande a história original e reconstrói o País das Maravilhas de Alice, que cresceu e ganhou novos medos além dos traumas iniciais. A estética e a trilha sonora do jogo são impecáveis, num tom melancólico e antiquado que equilibra o gótico e o fantástico. O País das Maravilhas, Wonderland, se divide em vários mundos menores, que variam desde o Vale of Tears (presente na obra original) até o Oriental Grove, domínio do Caterpillar com temática oriental que destoa pesadamente do resto do jogo. Por sua vez, a Londres vitoriana na qual a personagem vive se transforma em Londerland, uma mistura dos dois mundos onde nada faz sentido e a colisão acontece próximo ao fim do jogo, quando Alice está prestes a descobrir o que de fato é o Trem Infernal e como derrubá-lo.
O voice acting traz todos os personagens com sotaque britânico pesado, e vozes específicas para cada figura presente, ainda que o mesmo voice actor seja utilizado para mais de um personagem. Chesire Cat, White Rabbit, Mock Turtle, Mad Hatter, The Dutchess, March Hare, Dormouse… Personagens da obra original estão presentes e são tão assustadores e decadentes que às vezes é difícil reconhecê-los. O próprio Cheshire Cat de Alice Madness Returns se tornou referência e símbolo da franquia, com sua aparência esquelética e morta, o longo sorriso esfomeado e suas frases de efeito repletas de sabedoria e sarcasmo.

O Cheshire Cat esguio e sarcástico de McGee se distancia ferozmente do Cheshire Cat gordinho e feliz da animação de 1951 da Disney

Mecânicas de jogo

A gameplay é um assunto delicado. O jogo é um plataforma com batalhas e puzzles, de forma semelhante ao seu antecessor, mas teve que ser finalizado às pressas graças ao curtos prazos e exigências da EA. No livro “The Art of Alice Madness Returns“, que possui 200 páginas com artes conceituais, paisagens, estudos, rascunhos e protótipos do jogo, além de informações sobre a produção e a equipe que trabalhou na obra, McGee admite que não teve tempo para testar seu próprio jogo e sofreu grande pressão da EA para entregá-lo. Isso se torna facilmente observável ao jogarmos e sentirmos a falta de feedback e impacto de certas ações, bem como falhas nos pulos, desvios e movimentos básicos da protagonista. Mundos que se tornam desnecessariamente repetitivos e exaustivos, além de adversários que se tornam mais difíceis de enfrentar graças à falhas técnicas da personagem enchem a segunda metade do jogo, tornando-o um estorvo para se jogar por períodos muito longos. O jogo se estica de forma absurda, como se McGee precisasse preenchê-lo às pressas e decidiu criar mundos longos ao invés de jornadas diferentes para Alice, o que aumentaria as horas de jogatina. Infelizmente isso apaga parte do brilho da obra, que perde parte de seu potencial como um clássico.
A pressa para finalizar o jogo já podia ser vista nos trailers: há três teasers do jogo em estágios extremamente iniciais que não tiveram influência nenhuma na estética final e nem sequer possuem a logo finalizada do jogo. Você pode conferi-los clicando aqui, aqui e aqui; o trailer final de lançamento pode ser conferido no final desta matéria e a diferença entre ele e os trailers prévios citados é notável.
O jogo possui colecionáveis, passagens secretas, outfits específicos, mecânicas de encolhimento e  CGs em formato de livros pop-up infantis que ajudam a criar um ar mais memorável para a obra. Há certo charme nisso que pode estimular o jogador a tentar completar 100% do jogo, contudo, seus pontos negativos são tão esdrúxulos que podem levar o jogador do amor ao ódio pelo jogo em segundos. Essa, inclusive, é uma ótima conclusão sobre a obra: você amará e odiará Alice Madness Returns com força equivalente.

Uma nova aventura para Alice Liddell

E a melhor parte é que McGee ainda não desistiu de seu universo macabro: mesmo após o fracasso parcial de Alice Madness Returns, ele iniciou através do Patreon o projeto do terceiro jogo da franquia, intitulado Alice: Asylum. Este título se passaria entre American McGee’s Alice e Alice Madness Returns, com uma Alice Liddell adolescente. A meta é levar o projeto para a EA e conseguir sua aprovação para que possa ser desenvolvido e lançado oficialmente um dia; McGee trabalha incansavelmente, oferecendo diversos prêmios e colecionáveis aos patrocinadores do projeto, e você pode conferir o andamento dele clicando aqui. McGee sempre realiza livestreams e atualizações através das redes sociais sobre seu projeto, basta segui-lo no Twitter ou no Instagram para ficar a par das novidades de Alice: Asylum.

Onde encontrar Alice?

Alice Madness Returns pode ser adquirido digitalmente pelo PlayStation 3, Steam e pela retrocompatibilidade do Xbox; suas versões físicas se tornaram um tanto difíceis de achar hoje em dia, e são em sua maioria usadas. Se ainda assim você quiser se arriscar no jogo, prepare-se para se irritar com os controles, os corredores repetitivos dos mundos finais e se encantar com o cabelo de Alice, a coisa mais fluida e bem animada em todo o jogo. Alice Madness Returns é um jogo medíocre no melhor sentido da palavra, com o Metascore de 70 no Metacritic em suas versões de console e 75 em sua versão de PC; uma ideia fantástica perde parte de seu potencial pelas falhas técnicas simples e até bobas que podiam ter sido melhoradas e resolvidas através de testes, mas acabou sendo uma vítima do tempo e do desejo por lucro de sua produtora.

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