Review | Switched

Review | Switched

O Netflix é uma ótima plataforma para explorar novos conteúdos e se surpreender com séries, filmes e desenhos inesperados. No catálogo gigantesco da empresa, podemos encontrar pérolas escondidas que valem a pena ser conferidas e podem surpreender o espectador. Uma dessas pérolas é Switched, adaptação em série do mangá Uchuu wo Kakeru Yodaka de Shiki Kawabata em seis episódios estrelada por Kaya Kiyohara e Miu Tomita.

Produções japonesas e coreanas são comumente chamadas de doramas (forma oriental de pronúncia da palavra “drama“), e estes envolvem geralmente romances juvenis, intrigas e, claro, drama. Switched segue esse modelo fielmente, retratando a história de Ayumi e Zenko, duas estudantes da mesma sala que trocam de corpo numa fatalidade. Ayumi é a típica garota bonita e popular; Zenko é a gorda e “esquisita” da turma, rejeitada por todos. A troca, feita de propósito por Zenko, a favorece ao lhe dar o corpo, a família amorosa e a popularidade de Ayumi… Enquanto Ayumi perde tudo ao se ver presa no corpo de Zenko, solitária e humilhada por todos, até mesmo por sua mãe desleixada e cruel. Com Kaga e Koshiro (respectivamente o melhor amigo e o namorado de Ayumi), os quatro acabam se envolvendo profundamente na busca pela solução da troca… Mas Zenko agora tem tudo o que sempre quis e não vai abrir mão tão fácil. Os seis episódios da obra criam um enredo sobre a possibilidade de trocar de corpo com outra pessoa, o preconceito oriental que existe contra pessoas fora do padrão estético e a questão da auto-aceitação.

O ponto principal de Switched é a retratação do ambiente escolar japonês em relação ao bullying e a auto-aceitação. Zenko decide trocar de corpo com Ayumi para fugir de sua vida triste e miserável, e Ayumi, que sempre foi popular e tratada com carinho, fica chocada ao estar no corpo da colega e sentir na pele o desprezo de todos, inclusive da própria mãe de Zenko. Xingamentos, exclusão, desrespeito… Zenko é tratada como uma pária, uma doença, e Ayumi passa a entender seu sofrimento ao viver sua vida. A série faz questão de mostrar tudo isso de forma direta, e é impossível não lembrar da alta porcentagem de suicídios no Japão por conta da pressão social gigantesca que os japoneses sofrem no cotidiano, visto que é através do suicídio que os personagens trocam de corpo na obra.

Tomohiro Kamiyama como Koshiro Mizumoto e Kaya Kiyohara como Ayumi Kohinata (na foto, Umine no corpo de Ayumi)

Ayumi é descoberta no corpo de Zenko por seu melhor amigo, Kaga, que acredita na troca de corpos e apoia Ayumi nos momentos de bullying e tristeza, independente de sua aparência. É Kaga que lança uma luz sobre ela, e é por ele que Ayumi consegue se esforçar e suportar _. Ela age de forma gentil, apesar das grosserias que recebe, e cria uma auto-aceitação sobre sua aparência e sua situação atual, fazendo com que os colegas de turma passem a notá-la como um ser humano digno de respeito. A bondade de Ayumi faz parte de sua personalidade, independente de seu corpo e aparência. Enquanto isso, Zenko no corpo de Ayumi tem literalmente tudo o que sempre quis, mas não é feliz; continua com sua personalidade mesquinha e odiando à todos. No fim das contas, não importa o quão belo seu corpo é se sua personalidade é podre.

Como há troca de personagens, a atuação exigia um nível maior de dedicação do elenco principal, que precisaram interpretar de dois a três personagens diferentes durante o dorama. Isso foi feito de forma louvável, com os atores definindo traços físicos e trejeitos para cada um. É fácil se apegar aos personagens, que são carismáticos e cativantes com seus dilemas pessoais, sofrimentos e desejos.
O enredo tem algumas reviravoltas durante os seis episódios que esticam um pouco a trama. Talvez ter investido um pouco mais na quantidade de episódios para mostrar com mais detalhes o cotidiano das duas protagonistas em seus novos corpos fosse algo interessante, para mostrar as disparidades entre as vidas das duas no ambiente familiar, social e em situações fora da escola… Contudo, rumores indicam que uma segunda temporada de Switched pode vir a existir, visto que ele é baseado em um mangá e pode haver mais conteúdo disponível para adaptar na história.

Ayumi e Zenko

Disponível apenas em seu idioma original com legendas, Switched aborda o lado mais negligente e cruel da sociedade japonesa com um toque de drama e fantasia que diminuem o peso e a seriedade. No fim das contas, a lição de moral que a série entrega é que nossas vidas e a forma como os outros nos veem são reflexo de nós mesmos. Não adianta fugir; ter um corpo perfeito ou uma vida perfeita não muda o que somos por dentro. Ser bonito, além de ser uma questão de ponto de vista, não faz todos os seus problemas desaparecerem magicamente… Para ter uma vida melhor, a mudança precisa vir de dentro, com uma auto reflexão e o cultivo do amor-próprio. E claro, uma ajudinha dos amigos que te amam e apoiam é sempre bem vinda.

Siga nossas redes sociais: FacebookInstagramTwitter YouTube.

Compartilhe: