Crítica | O Mistério do Relógio na Parede

Crítica | O Mistério do Relógio na Parede

O Mistério do Relógio na Parede (no original, The House with a Clock in its Walls) é um longa-metragem de fantasia e humor distribuído pela Universal Pictures e lançado em 21 de setembro de 2018. Baseado no livro homônimo de John Bellairs, a história é relativamente simples: ambientado nos anos 50, um garoto órfão chamado Lewis (Owen Vaccaro), se muda para New Zebedee, indo morar na estranha casa de seu tio Jonathan (Jack Black) que é um feiticeiro! A casa, antiga e repleta de relógios e outras esquisitices, esconde um grande segredo em relação ao seu dono original, Isaac Izard (Kyle MacLachlan), antigo amigo de Jonathan. Junto com a bruxa sra. Zimmerman (Cate Blanchett), uma jornada se inicia, com Jonathan e Zimmerman ensinando magia ao jovem Lewis, que deseja se tornar um feiticeiro também.

Owen Vaccaro como Lewis

Adaptações cinematográficas de livros sempre sofrem certo preconceito por terem o “dever” de suprir as expectativas dos leitores em relação à obra original. Um dos últimos grandes casos de revolta pública com algo do gênero se deu com “O Orfanato da srta. Peregrine para Crianças Peculiares“, cuja adaptação feita por Tim Burton ofendeu os leitores da obra original ao trocar nomes de personagens e ignorar o final do livro, colocando elementos de outro livro da série. O YouTuber Felipe Neto chegou a gravar um vídeo na época de lançamento do filme xingando desesperadamente e apontando todos os erros cometidos por Burton. O livro original de The House With a Clock in its Walls foi lançado em 1973 e foi traduzido para o português em 2001, pela editora Record, e em 2018 (com a capa do filme, obviamente em função do lançamento do mesmo) pela editora Galera. Logo, não é de se estranhar que a grande massa de leitores já tenha tido acesso à história e esteja criticando a adaptação.

O diretor responsável pelo longa é Eli Roth, que trabalhou em filmes como “O Albergue“, “Cabana do Inferno” e “O Último Exorcismo“. Já a produção e o roteiro ficaram nas mãos de Eric Kripke, o criador da série “Supernatural“. Podemos assumir que tanto Roth quanto Kripke tem grande experiência na área de horror/gore graças à seus trabalhos anteriores, e isso favoreceu O Mistério do Relógio na Parede tanto em sua ambientação gótica quanto nas cenas aterrorizantes, como os bonecos “possuídos” e o demônio na floresta. A trilha sonora do longa não possui muito destaque, nada que seja memorável aos ouvidos dos espectadores.
Nathan Barr é o responsável, tendo sido indicado duas vezes ao Emmy por seus trabalhos em “The Americans” e “Hemlock Grove” em 2013. O mesmo já trabalhou com Roth nos já citados “O Albergue” e “Cabana do Medo“, e está cotado para trabalhar no remake de “O Grito“, que deve ser lançado em 2019. A impressão que fica é que Barr é um musicista de talento, sem dúvidas, mas não foi a melhor escolha para uma trilha de fantasia-gótica-infantojuvenil.

Jack Black e Cate Blanchett mostraram grande química entre si na telona

O longa metragem se desenvolve de forma constante, nunca entediando o espectador. Nada é empurrado para o final, que consiste apenas do plot twist e o clímax do enredo; não há conteúdo sendo jogado desesperadamente na platéia por falha do enredo em não conseguir explicar detalhes da trama. A atuação do trio principal é fantástica, fornecendo protagonistas carismáticos e repletos de química entre si; Jack Black e Cate Blanchett parecem totalmente à vontade com seus personagens e não deixam decepcionar às expectativas. O novato Owen Vaccaro despeja sorrisos, lágrimas e toda a graça da curiosidade infantil de um jeito cativante, que contagia o espectador à cada minuto do filme.
Os efeitos especiais são de alta qualidade, e a cena em que Lewis abre o espaço sideral no jardim de seu tio Jonathan é um dos pontos altos do filme. A movimentação da coleção de bonecos de Izard é assustadoramente humana, bem como a desenvoltura facial e corporal do demônio Azazel. Todos os objetos e seres mágicos ainda parecem criação de um filme, mas sua qualidade é inegável; aos olhos das crianças presentes, todos os monstros devem ter parecido uma ameaça real ao seu sono tranquilo.

O Mistério do Relógio na Parede é um filme primoroso, charmoso e obscuro, que não pesa aos olhos do espectador, mas estimula a fantasia e magia que residem ali. Um pequeno herói e seus dois tutores versados em magia dentro de um casarão enfrentam um vilão poderoso, com discursos sobre os horrores da 2ª Guerra Mundial, o sofrimento dos humanos e até onde alguém iria para se livrar de tais sentimentos de horror, além da dor que Lewis carrega pela perda de seus pais e a saudade deles. O lado adulto do filme estimula temas mais sérios, indo além das abóboras, faíscas e magias cintilantes que fazem o contrapeso com um quê de ingenuidade infantil. Há certa profundidade na história que torna todo o conjunto do longa ainda mais interessante para o público em geral, independente da idade.

NOTA: 4,5/5