Crítica | Solo: Uma História Star Wars

Crítica | Solo: Uma História Star Wars

Atenção, a crítica abaixo contém SPOILERS.

Por: Gustavo Leite Gobbi (Presidente do Conselho Jedi Alagoas)

Chegamos à estreia de mais um filme de Star Wars nos cinemas, o segundo da leva de “spinoffs” da saga, produzidos pela Lucasfilm e distribuídos pela Disney. De longe, o filme mais despretensioso da franquia desde que a Disney adquiriu a Lucasfilm, Han Solo: Uma História Star Wars trata-se de uma aventura cômica sobre o poder da amizade, da confiança e da bondade acima de tudo.

De cara, já somos introduzidos a uma nova faceta de Han Solo (Alden Ehrenreich), das muitas que ele tem ao decorrer da saga, que nunca havíamos visto antes. No início do longa, Han (ainda não Solo) tem diversos traços de Luke Skywalker em Uma Nova Esperança: é um jovem sonhador, apaixonado, em busca de sua liberdade e independência, que está disposto a se desprender do passado para viver uma nova vida fora do seu planeta natal.

Qi’ra (Emilia Clarke) também leva esse espírito consigo. A garota deposita sua confiança em Han até as últimas circunstâncias, até que seus destinos passam a seguir caminhos diferentes, afetando completamente a visão dela sobre Han e sobre o mundo. O mesmo não se pode dizer de Han (agora Solo) três anos depois, em seu reencontro com Qi’ra: ele ainda continua com os mesmos sonhos e a mesma ingenuidade.

Esses e outros fatores mostram que a evolução da maturidade de Han até o final do filme se constrói inteiramente através daqueles com que ele se relaciona. E esse é um dos instrumentos mais poderosos do filme.

Beckett (Woody Harrelson) é seu mentor, aquele que Han aprende a maior lição de todas sobre confiança e a que permite com que Dryden Vos saia derrotado. Chewie (Joonas Suotamo) é seu fiel escudeiro, inseparável desde o momento em que os dois se conhecem e se libertam das garras do Império, redefinindo o conceito de Han sobre amizade. Lando (Donald Glover) é o desafiador, aquele que confronta Han mas de uma forma positiva, impulsionando Han a ser melhor e mais audacioso. Até mesmo Val e Rio, precocemente mortos no filme, e Enfys Nest, antagonista até o segundo ato, conseguem deixar uma lição para o jovem Solo.

Tudo se encaixa para levar Han não pelo caminho que ele queria seguir, mas pelo caminho que ele precisava seguir. Para os fãs, um deleite. Nada como ver o primeiro encontro dos amigos Han e Chewie, a primeira partida de Sabacc de Han e Lando, a primeira vez em que Han pilota a Millennium Falcon e até mesmo como a nave perde sua cápsula de fuga para se tornar a Millennium Falcon que conhecemos na trilogia clássica.

Esse é, de fato, o primeiro filme “character driven” da saga. O roteiro de Lawrence Kasdan (O Império Contra-Ataca) e seu filho Jon Kasdan ousa nesse sentido mas não deixa de lado as referências (que são inúmeras) aos filmes clássicos. O “Eu te amo” e “Eu sei”, trocados por Han e Leia no final do Episódio V, quase quarenta anos depois se torna um “Eu te odeio” e “Eu sei”, trocados por Han e Lando, levando aos fãs na sala de cinema à gargalhada. É o tipo de esmero no roteiro que só quem conhece Star Wars como a palma da mão poderia criar, combinada a uma atuação sem igual de Alden Ehrenreich, que incorpora o maior contrabandista da galáxia de forma extremamente singular para nenhuma viúva de Harrison Ford reclamar.

Quando o assunto é ambientação e efeitos especiais, mais uma vez a Lucasfilm entrega um produto de altíssima qualidade, claramente feito com muito primor por quem a gente sabe que não só entende do que está fazendo, como ama o que está fazendo. Cada nave, cada planeta exótico e cada alien parecem cuidadosamente pensados com o objetivo de cada vez mais expandir o universo da saga e imergir o espectador no mesmo.

Feita a cerimônia, hora de falar de Han Solo: Uma História Star Wars não como um filme, mas como uma história de Star Wars. Deixando de lado a parte técnica e colocando na mesa o lado fã, a verdade é que não existe essa de “Ninguém pediu por esse filme” quando os créditos começam a rolar. Ao seu final, o filme traz o mesmo efeito de Rogue One, o primeiro “spinoff” da saga: você nunca achou que precisaria daquilo, mas depois de conhecer, aquilo se torna essencial.

O período em que o filme se passa, entre os Episódios III e IV, é nublado no cânone da saga em relação aos personagens da trilogia clássica. Sabemos que alguns anos antes de Uma Nova Esperança, Leia e Lando cruzaram o caminho da tripulação da nave Ghost em Star Wars Rebels, mas além disso, não há muita coisa. Han Solo: Uma História Star Wars abre o mapa da galáxia para grupos que não têm relação alguma com Império ou Rebelião, clãs que pensam apenas em sua própria sobrevivência, a famosa escória e vilania da galáxia.

Mostrar esses “tons de cinza” do universo de Star Wars, uma iniciativa iniciada por Rogue One e continuada em Os Últimos Jedi, é um dos grandes triunfos desse filme para a expansão de sua narrativa. Apesar de Han e seus amigos ao final do filme não “salvarem a galáxia do impiedoso e maligno Império Galáctico”, seus atos têm influência dentro daquele contexto e daquele universo dos contrabandistas e isso é mais do que suficiente para sustentar o filme. Com certeza nenhum dos “spinoffs” daqui para frente vai ter o impacto para a galáxia da saga como os filmes episódicos tem e é justamente esse um dos objetivos da existência desses “standalones”.

Aqueles que tinham esperanças em uma grande aparição de Boba Fett no filme, saíram com uma mão vazia mas com a outra cheia. A presença de Darth Maul no longa fez até os fãs mais céticos pularem da cadeira e, a partir daquele momento, começarem a tentar entender a sua relação com Qi’ra e a influência que isso pode ter para o próprio universo de Star Wars. É um “fanservice” muito bem-vindo, até mesmo mais do que seria uma aparição do Boba Fett de fato.

Combinando todas essas nuances que só um filme de Star Wars poderia entregar, Han Solo: Uma História Star Wars cativa, empolga e, apesar da carência de Skywalkers e todos os seus dramas de família, emociona o público em geral por focar no crescimento, amadurecimento e na importância das lições e das pessoas que passaram pela vida de Han e passam pelas nossas vidas.

Vida longa a Han, o nosso piloto favorito… o melhor da galáxia.

Nota: 4/5

Conheça o Conselho Jedi Alagoas

Acompanhe nossas redes sociais: FacebookInstagramTwitter YouTube.